sexta-feira, 2 de novembro de 2012

*Lágrimas de mulher*




(D. Amélia e D. Carlos I)



Gosto de histórias, histórias verídicas, feitas por homens e mulheres de carne e osso, como eu, como vocês! Na história da minha vida tenho três mulheres com as quais me identifico plenamente e constantemente, mulheres de garra que desafiaram os limites impostos pela época na qual viveram: a minha mãe e as minhas avós.
Mas olhando, olhando para a história do meu país inevitavelmente surgem sempre dois nomes femininos, com os quais pela minha personalidade, forma de estar e ver o mundo, como admiração, interessam citar e aos quais dedicarei este post e um próximo que ficará para outro dia.


Começo por aquela que foi a última rainha oficial de Portugal, D. Maria Amélia de Orleães.  Nascida num distrito do sudoeste de Londres em 1865, D. Amélia viveria uma vida fadada de perdas, lágrimas e muito sofrimento.
Desde a tomada de posse do trono da França por Napoleão III, que a família de D. Amélia vivia exilada em Londres, tendo regressado a Paris por volta de 1871. Apesar de seu pai ser apenas pretendente ao trono Francês, D. Amélia por ser a primogénita recebeu uma educação esmerada, vocacionada para as princesas. Dotada de imensas qualidades, tinha um dom natural para a Pintura e para a escrita. Escrevia aliás para os autores que tanto gostava de ler.

Esta mulher apesar da sua beleza e elegância tinha uma baixa auto-estima por ser descriminada pelos seus maravilhosos 1,85 cm de altura. A altura daquela que viria a ser  futura rainha do nosso país foi um verdadeiro obstáculo para a negociação de um possível matrimónio real. Poderia ter sido ela a estar ao lado de Francisco Fernando da Áustria aquando do seu assassinato que culminou na primeira guerra mundial. Mas quis o destino que esta mulher passasse pelo mesmo em terras lusas a 1 de Fevereiro de 1908, data do regicídio.

Após duas tentativas falhadas de contrair matrimónio, uma com a casa real austríaca, outra com a casa real espanhola, por ter uma altura "desadequada" para mulher, somente consegue que o enlace se realize com o futuro D. Carlos I.
Para D.Carlos o importante não era a altura de D. Amélia, mas sim, a sua elegância, beleza e inteligência. Apaixonaram-se um pelo outro e viveram ainda alguns anos o conto de fadas que D. Amélia sempre idealizou, mas os desgostos e desilusões não tardariam a surgir.
Assentaram residência oficial no palácio de belém e lá nasceram os três filhos da união: D.Ana Maria que nascera prematura e acabaria por morrer logo de seguida, D. Luís Filipe que viria a falecer no regicídio com o seu pai, e D Manuel II último rei de Portugal.




A morte, as perdas, o sofrimento desde cedo estiveram presentes na vida de D. Amélia, viu irmãos seus morrerem ainda crianças, assistiu de "camarote" ao homicídio mórbido e horrendo do marido e do filho. Foi expulsa como um animal sarnento do país que tanto amou e para onde quis voltar na hora da morte. Enterrou o seu ultimo filho, D. Manuel II com apenas 42 anos e no mundo ficou sozinha.

Apesar de ser uma mulher doce, caridosa, dotada de uma enorme inteligência e caracter, foi julgada por infâmias e calunias publicadas num livro que circulou em segredo por Portugal, que a davam como uma gastadora compulsiva e amante de membros da corte.
A história viria a confirmar que D. Amélia nunca teria tido casos extra conjugais, nem tão pouco ostentava luxos. Pressionava sim, que o governo tivesse atenção nas necessidades do povo, que fossem criados postos de assistência para os tuberculosos e todos aqueles que sofriam de algum mal.




(D. Amélia, D. Carlos e o príncipe D. Luís Filipe)

Foi uma rainha que não fez mais porque nem o tempo, nem a época assim o permitiu. Era chamada de "A Grande", o povo admirava-a pela sua altura, carisma, bondade... e muitos à praia da Ericeira dela se vieram despedir com lenços brancos... da mesma maneira que em 1951 a vieram receber em Lisboa para a sua última morada... o panteão dos Bragança.

Esta mulher de fé inabalável, a quem a vida lhe concedeu inúmeros desgostos, nunca perdeu forças, nunca se tornou fria, mas nunca deixou de lutar por aquilo em que acreditava. Conviveu inclusive na mesma casa com o exercito alemão que a invadiu, obrigando-a somente a ocupar o segundo piso. 
Foi Salazar que tornou a mansão de Bellevue residência da rainha, território neutro, obrigando assim a que o general Bieneck se retirasse. Mas devo salientar que apesar da ocupação o general e os soldados acompanhavam a rainha todos os dias à missa. 

Após 35 anos de exílio, D. Amélia regressa a Portugal, visita emocionada todos os locais que tanto lhe disseram e continuavam a dizer... quando parte de novo para França, grita para povo Português através da janela do comboio - "Viva Portugal".

Em 1951, com 86 anos, Amélia sucumbe à doença e pede que a deixem descansar eternamente no país que tanto ama, junto dos seus. O governo Português acede ao pedido fazendo um funeral com honras de estado.

Esta mulher esquecida e maltratada por um povo e nação que tanto amou disse: "Quero bem a todos, mesmo àqueles que me fizeram mal!"




Em muito me identifico com ela, por dor passei, por sofrimento caminhei... perdas senti e vi entes queridos partir. A fé nunca me deixou, o amor por mim e por Deus também não. Somos ambas muito altas para as nossas épocas, somos ambas diferentes do que é igual. Ambas chorámos, ambas lutámos por ter, para ter um mundo melhor e equilibrado. A vida fez-nos duras, mas não retirou a nossa sensibilidade! E muito mais que possa haver entre nós guardo só para mim. 

Gostei de partilhar um pouco da nossa história dando um exemplo daquilo que é ser mulher, escrito por outra grande mulher!

Obrigada aos que têm deixado comentários por aqui... bom fim-de-semana a todos!

Alexandra Martinho



7 comentários:

  1. Alexandra,
    Gostei imenso de ler o teu texto e de ver as fotografias. Não sabia deste detalhe da Rainha D Amélia, que achei muitíssimo curioso. De facto, 1,85, era muito para as mulheres daquele tempo. Mas se essa for também a tua altura, não tens com que te preocupares, pois hoje em dia cada vez há mais mulheres altas... E é preciso não esquecer as "top models"! :)
    Um beijinho

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  2. Adoro ler Romances históricos já li todos da Philippa Gregory, Maria Stuart, Duas irmãs e o rei, Rainha branca, Rainha vermelha, e agora estou a ler Catarina de Bragança da Isabel Stilwell e estou a adorar.

    Não conhecia os pormenores do reinado De Amélia, mas gostei da forma como os narraste.

    Beijo
    Bom fim de semana

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  3. Gostei de ler esta história, pessoalmente gosto da história da Catarina de Bragança que levou para as cortes Inglesas as "Tea parties" mas raramente referem esse facto, dizendo erradamente que o chá das 5 foi criado por outra rainha Inglesa.

    Isso reflete muito o modo como é vista a mulher portuguesa lá fora e o modo como nós próprios as vemos, porque pouca gente sabe isso, e mesmo portugueses insistem em dizer que as Tea Parties que originaram o chá das 5 é um hábito Inglês criado por Ingleses... Mentira.

    Beijinhos

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    1. Chá esse que por sua vez veio da Índia. :P

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  4. History. Never repeats, they say...

    Beijinho e bom fim de semana.

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  5. Um post magnífico e muito bem elaborado que me deu a conhecer uma mulher magnífica.
    Parabéns!

    beijinhos

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  6. Apesar de ser pró-República, independentemente da sua origem maçónica, uma das coisas que eu nunca compreendi no seio das famílias reais era a cena dos casamentos combinados entre os seus membros que por sua vez não raras vezes eram entre outros membros de famílias reais. Faz-me lembrar um pouco a cultura cigana, sem a parte da realeza.

    Confesso que não sabia nada da D. Amélia e hoje já fiquei a "conhecê-la". Parece que o regime salazarista não se esqueceu dela e teve-a em boa conta. Ainda assim continuo a preferir a Rainha Santa Isabel, que por algum motivo é santa. :)

    Beijinhos.

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