quarta-feira, 11 de setembro de 2013

"Mundo Insólito - Primeiro homem transexual a dar à luz na Europa é alemão" By JN









a notícia está aqui


A este tipo de notícias atribuo a curta citação "prazer de brincar com coisas sérias". O mundo é insólito quando temas sérios são abordados à escala de artigos da imprensa cor-de rosa onde tudo é banal e vulgar. No que toca a este tema ouve-se de tudo, vê-se tudo e esse tudo é colocado no mesmo saco como se de aberrações se tratassem. O presente artigo serve para que pelo menos mais uma pedra seja colocada no muro da desmistificação e assim se derrube de uma vez por todas a ignorância instalada numa sociedade que hipocritamente todos os dias grita por direitos humanos e igualdade. Começo por referir que não existem homens ou mulheres transexuais, existem sim, homens e mulheres que nascem com uma patologia genética a que damos o nome de transtorno de identidade de género.

Harry Benjamin, importante séxologo do século XX e considerado o pai da transexualidade, desenvolveu desde os anos quarenta até à sua morte, importantes estudos que possibilitaram o tratamento adequado de homens e mulheres que recorriam a si dizendo que não eram quem a sociedade dizia ver.

Confusos?

Através das suas experiências percebeu que a indução de estrogénio em pacientes nascidos supostamente "homens" amenizava o sofrimento e dor interna exteriorizada inúmeras vezes através de comportamentos agressivos ou de isolamento social puro.
Sabemos que o transtorno de identidade de género dá-se durante a gestação do feto ocorrendo alterações hormonais profundas derivadas de pelo menos três combinações genéticas onde encontramos a molécula ER-Beta. O cérebro do recém-nascido será feminino devido a esta alteração hormonal e os genitais masculinos ou, o cérebro será masculino e os genitais femininos. Não sendo detectada, por enquanto, na gestação, as equipas médicas especializadas e multidisciplinares podem intervir e acompanhar o paciente desde a primeira infância.

Os sinais da doença estão presentes desde os dois, quatro anos de idade, altura em que a criança começa a ter percepção de si mesma e de quem é quando inserida em contexto social. Insistem em vestir permanentemente a roupa do sexo oposto, porque o cérebro lhes diz que aquela é a roupa certa. Brincam e têm comportamentos que são próprios do sexo oposto, os "rapazes" gostam de brincar com bonecas, urinam sentados, sentem repugnância por possuírem um pénis e encolhem-no por entre as pernas. As "raparigas" recusam brincar com bonecas, vestir vestidos e o mundo desaba quando o peito cresce e surge a primeira menstruação. (Coloco rapazes e raparigas entre aspas porque, na verdade, eles são elas e elas são eles.)

Ao atingir a maioridade, dezoito anos, dá-se inicio a um diagnóstico médico rigoroso, a devida administração hormonal como preparação para as cirurgias e modificação gradual do corpo para que o seu fenótipo esteja de acordo com o seu verdadeiro genótipo. Terminadas as avaliações médicas e despistada qualquer outra patologia, se as transformações assim permitirem dá-se inicio à prova real de vida em que se insere o paciente no meio social com a sua verdadeira identidade. Após esta derradeira prova de fogo submete-se o processo do paciente para a ordem dos médicos que autorizará as operações segundo os requisitos impostos pela organização mundial de saúde. Convém salientar que o transtorno de identidade de género não é uma doença mental, paranóia ou mania de quem acorda pela manhã e diz - "sou mulher" ou "sou homem". Estas pessoas passam anos mergulhadas num profundo e doloroso silêncio que tantas vezes as atira para profundas depressões e tentativas de suicídio.
A vida para eles e para elas começa depois de várias cirurgias de readequação do corpo à mente, sendo que, até ao resto da vida terão de continuar o tratamento hormonal em doses reduzidas para impossibilitar ou reduzir o risco de surgimento de doenças como cancro ou osteoporose.



Temos o dever e responsabilidade de auxiliar estas pessoas. O dever de não julgar e ir em busca de informação credível que nos ajude a esclarecer, a crescer enquanto seres humanos preparados para as diversas realidades com que a natureza nos confronta todos os dias da nossa vida. Quanto à noticia em si e outros casos que surgem na televisão de pessoas que se dizem ser "transexuais" posso garantir o seguinte, de acordo com os padrões internacionais que regem o diagnóstico de perturbação de identidade de género este caso e outros tantos semelhantes não são, nem nunca foram transexuais. O simples facto de engravidar voluntariamente exclui por completo essa possibilidade. A mesma regra aplica-se aos que mantêm o pénis voluntariamente e o usam. É preciso ter cuidado quando entramos em terrenos que desconhecemos e a comunicação social tem, definitivamente, um papel preponderante na divulgação de mensagens correctas que promovam o esclarecimento. 
Defendo que disciplinas como psicologia devem ser obrigatórias para que os jovens compreendam efectivamente a biodiversidade que os rodeia, teremos futuros adultos e cidadãos muito mais esclarecidos e preparados. 

Após quase uma semana de pausa nas minhas actividades por estas bandas, decidi que era altura de trazer ao "ouso escrever" um tema que merece uma "discussão" sensata e todo o nosso respeito. Afinal, tal situação, pode existir no interior das nossas casas e nem sabemos.


Uma boa semana para todos!


Alexandra Martinho



14 comentários:

  1. Eduardo Sotto de Castro12 de setembro de 2013 às 00:18

    Parabéns pelo tema e pela forma inteligente com que o abordou. Tenho o orgulho de dizer que sou casado há 5 anos com uma mulher que passou por este processo, a Rita.
    A Rita mostrou-me que durante os 33 anos que vivi antes de a conhecer, estive mergulhado numa enorme apatia e ignorância. Via-me como um homem experiente e vivido, mas tudo isso caiu por terra quando a conheci e tomei conhecimento desta realidade que é tão julgada e menosprezada por esta sociedade fútil em que vivemos.
    Com a Rita aprendi a preservar a minha vida, a minha intimidade, aprendi a amar e ser amado como qualquer homem ou mulher merece. Sofreu muito e, ainda hoje, quase dez anos depois de ter concluído o processo clinico que iniciou aos 23 anos tem feridas por sarar.
    No inicio do nosso namoro não fui correcto para ela, evitava-a, arranjava desculpas para ela se afastar de mim e sim, não fui o melhor namorado do mundo. Valorizava demais as opiniões alheias e aquilo que os outros poderiam pensar, até que percebi que estava a perder a mulher da minha vida.
    A Rita não teve inimigos, teve um inimigo, apenas um que vale por milhares, a sociedade! Invejo-a, gostava de ter metade da coragem e força que ela tem e sinto-me, como já disse, orgulhoso de ser marido dela.
    Obrigado Alexandra por esta sua intervenção e sim, tem razão quando diz que a psicologia devia ser obrigatória e nela abordada todos estes temas.

    Tive oportunidade de ler outros textos seus, pondere em lançar um livro e ajude-nos a ir mais além. Portugal necessita de pessoas esclarecidas como a Alexandra.

    Beijinho!

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  2. Muito em explicado! Deve ser horrível ser uma dessas pessoas...

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  3. Também acho que a psicologia deveria ser obrigatória. Concordo com a tua visão, Alexandra :)
    Beijinho

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  4. De facto está um artigo muito bem explicado e fundamentado. Quero acrescentar que as pessoas que passam por um processo desta envergadura adquirem competências e uma percepção de vida que nós dificilmente conseguiremos atingir. Maturidade, sim, são homens e mulheres extremamente maduros e bastante selectivos no que toca a amizades e relacionamentos amorosos. 
    Aqueles que tiveram percursos limpos e saudáveis do ponto de vista emocional quando terminam o processo clínico recusam-se a falar do mesmo e sempre que percebem que alguém tenta invadir a sua privacidade afastam-se sem dar explicações. Estas pessoas são livres, aprenderam a fazer escolhas, amam-se e isso mete impressão na cabeça de muita gente que os/as inveja porque gostariam de ter somente metade da coragem que eles/elas tiveram em ser quem são. Quebraram todas as regras e muitos, hoje, são pessoas bem sucedidas no campo profissional e sentimental. 

    Termino com esta frase, é no limite do sofrimento que aprendemos a dar valor e a verificar quem são ou não são pessoas de valor. A selectividade surge quando somos maltratados, julgados e descriminados sem pudor por gente que não merece o nosso respeito. As máscaras caem e estes seres humanos sabem identificar máscaras e gente interesseira como ninguém. Abram os olhos e ouçam o que eles têm para dizer a todos nós!

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  5. Acima de tudo ajudar e respeitar e claro ter mais informação ,um texto muito esclarecedor beijinhos

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  6. Na parte em que a Alexandra diz isto:
    "Temos o dever e responsabilidade de auxiliar estas pessoas."

    Não sei porquê mas tenho a sensação que isso implica 'entrar' na intimidade/privacidade das pessoas. Na minha opinião e vale o que vale, parece-me que só o deveremos fazer a partir do momento em que nos seja pedida uma ajuda directa. Só e porque a partir do momento em que muita gente sabe, o preconceito aparece. E apontar o dedo a alguém que não é considerado 'normal' (o que quer que normal queira dizer) é levar mais problemas a quem já deve sofrer bastante com a situação.

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  7. Acima de tudo devemos respeitar todas as pessoas.

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  8. Parabéns amiga Alexandra pela forma sensata,inteligente e esclarecida com que abordou um assunto muito sério.
    É pena que a sociedade não evolua no sentido do respeito pelas diferenças.

    Beijinho

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  9. Respeitar e aceitar a diferença é o mais importante.Gostava de acreditar que aos poucos e poucos as mentes mais fechadas se vão abrindo para estes casos.

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  10. Falamos de mentes fechadas, de preconceitos e ainda ninguém entendeu que estamos perante uma doença genética que pode atingir qualquer um. Sofre o doente, a família do doente e alguém preocupa-se com isso? Não, claro que não!
    A comunicação social dá visibilidade a quem lhe interessa e no meio de todo esse interesse são exemplificados casos de pessoas que tentam tirar algum proveito cultural, social e económico de uma situação que provoca sofrimento. Vivemos em que mundo, em que país afinal? Acordem para a vida.

    A Alexandra fez muito bem em escrever sobre este tema porque, de facto, muito se fala sobre "transexualidade" mas pouco se acerta por pura ignorância. Quem nasce com o transtorno de identidade de género assim que termina todo o processo clinico raramente dá a cara para testemunhar, estas pessoas querem viver em paz porque já basta de feridas e julgamentos vindos de gente sem qualquer tipo de cultura ou educação.

    Parabéns Alexandra e não deixe de denunciar aquilo que está mal.

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  11. Ousas escrever e que bem o fazes.

    obrigado pelo esclarecimento.

    É um assunto onde o preconceito e a ignorância podem deturpar.

    beijos

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  12. A comunicação social, em vez de informar com rigor, apenas ajuda a adensar a ignorância sobre casos como este, que abordas.

    Esta notícia deveria ter sido dada com a clarificação com que falaste do assunto. Há uma enorme falta de respeito pelo sofrimento e complexidade do ser-outro.

    Beijo e obrigada, Alexandra!

    Laura

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  13. Bem, o texto é esclarecedor, subscrevo!
    E,depois do comentário do Eduardo Castro não ouso acrescentar,nem, uma virgula :)

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  14. Ao passar pela net encontrei seu blog, estive a ver e ler alguma postagens
    é um bom blog, daqueles que gostamos de visitar, e ficar mais um pouco.
    Eu também tenho um blog, Peregrino E servo, se desejar fazer uma visita
    Ficarei radiante,mas se desejar seguir, saiba que sempre retribuo seguido
    também o seu blog. Deixo os meus cumprimentos e saudações.
    Sou António Batalha.

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Façam do meu espaço o vosso espaço, ousem comentar... eu ousarei responder! :)