quinta-feira, 19 de setembro de 2013

'Síndrome de Peter Pan - O marasmo do prazer fútil e da terra do nunca'










Há cerca de trinta anos o psicólogo norte americano Dan Kiley identificou em contexto social o síndrome de Peter Pan ou, por outras palavras, o adulto que se quer eternamente jovem.
Todos nós conhecemos a história de Peter Pan e a terra do nunca. Sabemos que o seu maior desejo é a eterna juventude como tudo aquilo que ela simboliza, uma personagem e ideologia que em tudo contrasta com Wendy. 
Nos últimos cem anos sociedade e família têm sofrido derradeiras transformações, transformações essas que incitam à vivência de prazeres imediatos que provocam danos a longo prazo no corpo e na vida do indivíduo. Todos os dias os mass media através das múltiplas mensagens motivadoras e manipuladoras alimentam o desejo pela eterna juventude, um desejo exacerbado que repercute-se em comportamentos de risco, bebedeiras consecutivas, uso esporádico de drogas, noitadas sem fim e grupo de pares que levam sempre ao mesmo tipo de comportamentos. Tudo, mas sempre tudo em prol de uma reputação de "bon vivant et forever young"

Aplicamos o síndrome de Peter Pan a indivíduos do sexo masculino e feminino com mais de trinta ou quarenta anos que continuam a levar um estilo de vida próprio da adolescência. Extremamente vulneráveis e sensíveis a críticas possuem geralmente baixa auto-estima embora disfarçada. Viveram num ambiente familiar castrador e as primeiras amizades não foram de todo as mais aconselháveis para a construção de uma personalidade sã.
Abraçadas por um enorme vazio afectivo desde a infância continuam, agora, na idade adulta a sentirem-se desprotegidas e angustiadas quando a vida as desafia e lhes apresenta o desconhecido.

Falam da vida pessoal e profissional sem entenderem onde se situam as fronteiras entre público e privado. A insatisfação apesar de permanente é ladeada pela ausência da tomada de decisões para resolução de problemas. Querem tudo e nada fazem para alcançar esse tudo.
Embarcam e são facilmente influenciáveis pelas opiniões de terceiros, acham que a vida é para ser vivida sem limites ou reflexões. O compromisso, no verdadeiro sentido da palavra, é um obstáculo ao "ideal" de liberdade tal como, conversas sobre saídas nocturnas e directas são motivo de vangloriação social, afinal não podemos esquecer que quem não tem uma vida social muito activa é olhado de lado, considerado/a uma autentica múmia. (Ironia)

O presente texto não pretende ser uma critica destrutiva ou social, mas é importante que perante o caos que vivemos se pondere e reflicta sobre comportamentos, atitudes e palavras que vamos tendo ao longo da nossa vida. É imprescindível compreender que tudo tem um tempo certo e indicado para acontecer, que o corpo emana sinais, negligenciados, sempre que fazemos algo que nos desrespeita. 

Faz falta viver com paixão e respeito pelo ser, de parecer está o mundo farto e isso é visível a cada esquina, a cada rosto sisudo e carregado. As mentes adormeceram e as almas perderam-se.



"Viver é a coisa mais rara do mundo - a maioria das pessoas apenas existe."



Uma excelente quinta-feira a todos!


Alexandra Martinho


13 comentários:

  1. Não vejo este momento como critica mas como um belo texto que dará com certeza uma boa reflexão perante o ser humano e a vida ,naquilo que somos e naquilo que nos podemos transformar mas tudo depende de cada um ,beijinhos

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  2. Olá Alexandra,

    as pessoas quando não gostam de ouvir ou ler verdades facilmente as identificam como sendo críticas destrutivas. Sou psicólogo e o tema que aborda no seu blogue é estudado e observado desde os anos 80 e, hoje, é de facto um fenómeno com tendência a crescer. Tudo começa na infância com as vivências que temos nesta fase fundamental da nossa vida. A família exerce um papel importantíssimo no nosso desenvolvimento cognitivo e emocional, com ela aprendemos a estar e ser no ambiente social onde a diversidade existe.

    O síndrome de Peter Pan é evidente naqueles homens e mulheres que não conseguem aceitar que tudo na vida é baseado em compromissos e responsabilidades. Quem nunca ouviu falar de recém divorciados que levam uma vida típica da adolescência, ou daquele homem ou mulher que deixa a família em casa para se divertir com amigos em noitadas e bebedeiras descomunais.

    Há alguns anos tive no meu consultório um casal com cerca de quase 20 anos de casamento e que se encontravam numa situação de ruptura iminente. A principal queixa era a intromissão excessiva da família do marido, nomeadamente, os irmãos, na vida íntima do casal. Após algumas sessões de terapia compreendemos que estávamos perante um exemplo claro de síndrome de Peter Pan.
    Os irmãos do senhor em causa embora já adultos tinham ficado retidos na adolescência, não aceitavam que o irmão (também ele detentor em outros tempos do mesmo síndrome) tinha dado um passo em frente na construção da sua própria individualidade e com isto entrado na idade adulta, em pleno. Casamento, filhos, responsabilidades são aspectos próprios da vida que estas pessoas renegam porque no fundo, apesar da idade, são imaturos/as.
    Com o passar dos anos e depois de inúmeras investidas para que o irmão se comportasse como eles, a corda esticou demais e partiu pela inexistência do "não" e do "não vou", "não faço". Felizmente foi possível inverter a situação que culminaria num divórcio certeiro sem razão de acontecer. Os laços do casal ficaram reforçados e, hoje, informação respeitante à vida conjugal mantêm-se na esfera protectora que a privacidade confere.

    Agradeço-lhe o facto de ter trazido até nós um tema actual e pertinente.

    Um bem-haja, Alexandra!

    Nuno C.

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  3. Olha eu gosto do meu lado de criança!

    Beijo

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  4. Namorei com um 'Peter Pan' (ahah) uns 6 anos e depois cansei-me. Engraçado, ele não gostava da noite, de beber e tão pouco se metia em drogas, era até certinho demais para o meu gosto. De resto tudo o que a Alexandra descreve coincide. Demorei foi tempo a aperceber-me.

    Beijinho :)

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  5. Acho que o final do texto resume tudo:

    "Viver é a coisa mais rara do mundo - a maioria das pessoas apenas existe."

    É isso mesmo :)

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  6. Olá Alexandra,

    Eu não quero ficar "eternamente jovem", quero é viver!

    Abraço grande

    ( um bom texto para reflectir)

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  7. r: obrigada, apetecia-me mesmo ouvir algo deste género! ;p

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  8. Um beijinho a todos e votos de um feliz fim-de-semana!


    Após quase um ano de publicações apenas quero dizer que é com gosto que partilho o meu espaço com vocês! Quanto ao síndrome "Peter Pan", volto a salientar que se o comportamento humano fosse devidamente interpretado seriam evitadas muitas chatices e frustrações! 

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  9. Adoro estas aprendizagens. A mente humana é extremamente complexa.

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  10. Boa publicação, de facto existe coisas que nem mesmo conhecemos.. nem podemos conhecer tudo! *

    Segui-te, xoxo! :) *

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    1. Nelson,

      sê bem-vindo! Existem coisas que estão longe do nosso conhecimento porque com o tempo fomos perdendo tempo de ficar e com ele a nossa capacidade de análise. Avaliamos as situações como meros espectadores e esquecemos de avaliar o essencial, as causas de determinados comportamentos. Temos nas nossas mãos sempre a chave para alcançar a felicidade que tanto se apregoa por esse mundo fora mas, enquanto, não deixarmos de lado a caducidade do passado será difícil de evitar a espiral das repetições.

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  11. Dizem que os 40 são os novos 30, assim sendo a adolescencia arrasta-se até mais tarde :)

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  12. Desconhecia completamente esta síndrome, sinal que ando deslocada deste contexto felizmente.

    Se puderes amiga Alexandra passa pelo meu blogue e brinda comigo a um dia muito especial! :)

    beijinho

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