quinta-feira, 28 de agosto de 2014

"Viver é perder cascas continuamente!"







Ao deparar-me com a afirmação que serve de título a este texto, achei que era o momento ideal de abordar o tema "família".
Podemos definir a palavra família como sendo o conjunto de estruturas e exigências funcionais invisíveis que organiza a interacção dos seus membros estabelecendo laços afectivos e de parentesco entre si. Os laços afectivos permitem que os indivíduos permaneçam ligados moralmente, materialmente e reciprocamente durante a vida e várias gerações. Na família, com a família aprendemos a estar, a viver, a ser!

Já há algum tempo que pretendia escrever sobre esta temática, no entanto, sempre que o tentava sentia os meus dedos dormentes. Não era o momento ideal. Não era altura. Porquê? Porque há dores que somente eu sei o quanto doem. Cá dentro. Naquele sitio em que ninguém mexe, apenas bate, apenas sinto. O meu coração!

Vou colocar-me do lado de fora da minha casa. É agora. Quero falar deles, sobre eles! O que vejo? Duas mulheres, três homens e cada um deles com a sua dor. A avó, uma senhora de rosto marcado pelas rugas que nos seus oitenta anos de existência revelam sofrimento. A dor da perda de um companheiro de vida. O meu avô.
A mãe, uma mulher de cinquenta e cinco que aos quarenta e dois se viu sozinha com dois filhos ainda menores para educar e sustentar. Porquê? Porque o pai talvez tivesse percebido que aquele não era o caminho, que ali não era feliz. Ou, quem sabe, pensou que os momentos de diversão e escape nunca seriam descobertos.
O mano, o mano que aos vinte e dois anos prepara-se para terminar o curso de ciências agrárias. O mano que foi obrigado a crescer. O mano que lembranças da vida familiar diz não ter. O mano que tanto engole e eu, bem sei que ele tanto quer chorar.
E, por fim, o companheiro. O meu. Homem de palavra a quem os contratempos da vida ceifaram anos de vida. 

É, gente sofrida que é a minha família. Gente sofrida, mas gente de bem.

De maneira fria e distante olho para todos eles, porque somente dessa maneira consigo escrever sobre vocês.
Nesta casa desceu o pano negro. O luto cerrado que acalenta os corações de quem ainda chora a partida. Luto após luto, perda após perda. Não é necessário morrer para haver luto. Basta partir. São laços que se quebram e projectos de vida que ficam por isso mesmo, projectos!
Posso não ser a melhor pessoa do mundo. Escrever bem não revela carácter. Mas não deixa de ser verdade que quando vos olho vejo além do perceptível.

Cansaço. Ninguém imagina o quanto todos vós estão cansados. Ninguém percebe. Ninguém verdadeiramente vos ouve. Caminhar e viver pode cansar. E o cansaço ceifou quem muito amávamos para o descanso eterno. Percebo isso. Com toda a certeza que hoje o percebo.

A minha família não é perfeita. Pessoas perfeitas existirão? Não sei! Apenas que aqui não mora a desfuncionalidade, mas mora a dor. Mora o descontentamento e a interrogação daqueles que se sentem injustiçados. Basta olhar para o percurso de cada um, porque aí reside a razão de ser aquilo que se é.
Ainda hoje a mãe dizia que durante uma vida viveu de protocolos. Ainda hoje a avó dizia que sentia saudade. Ainda hoje o mano dizia que estava na altura de ir embora novamente. Ainda hoje o companheiro dizia que estava assim, assim. Ainda hoje eu pensei seria que cada um de vós pudesse ser entendido como de facto merece.

Amo-vos tanto! Mas sinto-me cansada! Desculpem se não consigo atender às vossas necessidades. Desculpem se não tenho sido a Alexandra de sempre. É isto, estou cansada. Cansada de tanto lutar. Quero-vos bem... quero-vos assim!


Alexandra 







20 comentários:


  1. Alexandra:
    A vida é ingrata e muitas vezes sentimo-nos injustiçados por acontecimentos que julgamos não merecer, mas faz parte da essência da vida. Não fiques assim...melancólica.

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  2. Olá Jorge,

    em determinado momento senti que tudo não passava de uma enorme injustiça. Mais tarde compreendi que afinal tudo faz parte do nosso caminho, mas não é menos verdade que a minha família por tudo o que tem passado raramente contou com o apoio de terceiros. Nem que fosse para perguntar: como estão?
    A minha mãe recentemente foi vista por um médico e aquilo que ela lhe disse foi, a senhora está exausta. Tem de abrandar o ritmo e aprender a não dar tanto de si aos outros para não sentir que ninguém a compreende. Será que ela vai conseguir fazer isso? Tenho dúvidas! Sempre conheci a minha mãe assim. Dedica-se. Dá de si mesma quando pouco ou nada tem para dar.
    Passado mais de um ano do falecimento do meu avô nunca a vi ter uma única conversa a respeito disso. Aos 18 anos passou pela perda dos avós. Viveu durante vários anos um clima de enorme tensão provocado por desentendimentos familiares devido a partilhas. Trabalhou nos meloais e tomatais que os meus avós faziam nos campos da lezíria. Casou, teve dois filhos e aos 40 vê-se confrontada com uma separação abrupta e falecimento do sogro a quem tinha muita estima. Passou pela minha doença e agora pelo falecimento do pai que lhe deixou marcas profundas. Não perdeu somente um pai, perdeu o maior confidente e conselheiro.
    A minha avó, por sua vez, está completamente alienada da realidade e isso provoca-nos algum sofrimento e, às vezes, alguma falta de paciência... É difícil, tenho tanta para dizer mas aqui não é o local.

    Obrigada e boa quinta-feira!

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    1. Todos nós passamos por momentos difíceis na vida, uns mais que outros, é certo, mas o que nunca podemos fazer é desistir.
      Beijinhos, Alexandra!

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  3. Boa tarde, Alexandra! sabemos que a vida tem altos e baixos, estamos sujeitos ao inesperado, os anos passam-nos por cima, estes dão-nos uma aprendizagem continua para aperfeiçoarmos a personalidade, fazem-nos ter sentimentos cada vez mais fortes com os valores familiares a consolidarem-se cada vez mais.
    Temos alturas que nos sentimos cansados, andamos de rastos sem soluções, mas chega o momento, que com mais ou menos dificuldade, os problemas que nos afectam começam a resolver-se, tudo começa a melhorar na nossa vida, esperança e motivação tem que viver sempre na nossa alma.
    Alexandra! vai abandonar a blogosfera? neste mundo não existe prioridade nem obrigação de comentar outros blogs, comenta-se quando existe tempo ou pela necessidade o fazer.
    AG
    http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

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    1. Olá AG,

      não tenciono abandonar a blogosfera. Na verdade, este texto é apenas e somente aquilo a que chamo de relato sobre o quotidiano familiar de quem tem atravessado inúmeros altos e baixos. De resto estou bem, estamos bem.

      Beijo e boa semana!

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  4. Ocorre-me dizer uma coisa que ouvi recentemente: "Preocupa-se demais, sorria, viva!" Sei que é fácil falar mas quem sabe se ao pensar numa frase assim, não acontece um clic... Abraço

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    1. Gaja Maria,

      preocupações tem sido demais, sim! Mas tudo passa e a cada dia que passa é mais um objectivo superado, uma aprendizagem alcançada.

      Abraço e boa semana!

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  5. Oi Alexandra!
    Parece que você descreveu muito bem sua família e acertou em cheio, o cotidiano da maioria delas.
    Em maior ou menor grau, nossas famílias se assemelham. Parabéns!
    Bom final de semana! Abraços!

    vitornani.blogspot.com

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    1. Vitornani,

      penso que é algum comum à maioria das famílias. Na minha, felizmente, sempre houve espaço para falar de sentimentos, expressar sentimentos. Quando olho em redor sinto todos um pouco cansados, tristes até. Mas tenho fé e esperança que tudo isto um dia passe, que a dor amenize e assim possamos seguir em frente como sempre o temos feito.


      Boa semana, abraço!

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  6. Querida amiga Alexandre a vida e uma imensidão de incertezas onde cada dia apresenta-se como um novo recomeçar ,sei quanto a dor pode ser dificil e que tantas marcas nos pode deixar ,mas a vida também nos concede lindos momentos que nos dao a força para continuarmos a lutar .Muitos beijinhos que a sabedoria prevaleça ,a paz reine e o amor alimente esse coraçao lindo que você tem, ,muitos beijinhos felicidades .

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    1. Querida amiga Alexandre?! hahahahah :)


      Obrigada pelas tuas palavras de alento e carinho, Emanuel.

      Beijinho e boa semana!

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  7. Um texto extremamente forte, real, vivido por si. Poderia dizer que me tocou
    particularmente, que eu própria tenho algumas partidas imensamente dolorosas e que me marcaram para sempre.
    Mas a amiga, sabe, que é preciso continuar a caminhar...a enfrentar a vida,
    a tentar suavizar o possível.
    A minha muita amizade num beijo de ternura para si.
    Bj.
    Irene

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    1. É não é Irene?! Todas nós em algum momento da vida já experimentámos passagens algo dolorosas. Este último ano tem sido particularmente difícil para a minha família. E para mim também.

      Tudo se faz, tudo se consegue quando existe ternura entre os seres por nós amados.


      Beijo e boa semana!

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  8. Estes momentos que fazem parte da vida e
    que nos desconcerta as vezes;o lema é continuar a
    persistir no amor e na felicidade. :)

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    1. Olá Dani,

      não descrevo tudo ao pormenor porque não se o deve fazer. Há tanto para viver, tanto para sentir. Há que viver a felicidade e sentir a tristeza, dois pólos distintos que nos ensinam muito.

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  9. Por isto são família. São nossos.

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    1. São nossos, são família... É verdade Miak!

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  10. Oi, bom tudo, Alexandra.
    Eu vim aqui, nesta noite de sábado, lhe trazer um verso, para você, refletir conosco:
    I
    Lágrimas despejadas, amargas, em desobrigas de ir embora.
    E já não basta terços, rezas e patuás, que outrora consolava
    Em rodas de ritos, a cólera maldita, assobiante com o ebola
    Agride a terna Mãe África, desesperada, pelos filhos, chora.

    Um abraço

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    1. Olá José Maria,

      este verso que aqui deixou dá que pensar. Há sempre uma mãe que chora, porque mãe que é mãe, pela felicidade dos filhos sente alegria, pela tristeza sente a dor e chora. Por vezes, a fé vai embora e há como que uma raiva de desamparo que assola os corações. É isto, mas a verdade, é que todos de certa maneira estamos amparados pelo doce e terno abraço da mãe natureza.

      Abraço

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