quinta-feira, 23 de abril de 2015

Agricultura e relações familiares





No seguimento da minha última publicação, hoje, publico um texto que aborda o impacto da actividade agrícola nos relacionamentos íntimos e familiares.
Em primeiro lugar é preciso desmistificar a ideia de que os agricultores portugueses "nadam em dinheiro". Isto não é de todo verdade. 
O ramo agrícola é uma actividade de elevado risco porque a principal condicionante à pratica desta actividade o homem não consegue controlar. Existem estufas, culturas sazonais, sistemas de rega e alfaias de última geração mas, aquilo que vem lá de cima, ninguém consegue controlar.

O agricultor por campanha é capaz de gastar mais de 50.000 euros onde englobamos adubos, sementes ou plantas, electricidade, mão-de-obra, prestação de serviços, avarias eléctricas nos sistemas de rega instalados, gásoleo agrícola, entre outros factores de produção. Contudo, é pertinente a seguinte questão: conseguirá este produtor reaver da terra mais do que gastou logo à cabeça? Não podemos esquecer que os gastos são de acordo com a área produtiva que agora com o novo PDR tem novos pressupostos/regras. 

É muito complicado prever a quantidade de produção que poderá ser atingida, quase como que um tiro no escuro. O clima tanto pode favorecer como prejudicar. E muitas são as vezes em que surgem intempéries, assim do nada, e com elas arrasam hectares de trabalho e investimento financeiro.

Atenção, não estou com isto a traçar o pior dos cenários. Mas, a verdade, é que a agricultura é uma actividade económica incerta em que o espirito de sacrifício e entrega deve estar no auge. 
Convém salientar que não pode ser encarada como uma actividade de part-time ou fim-de-semana. Este tem sido o principal problema em Portugal. Os portugueses encaram a agricultura como actividade de fim-de-semana, como um escape à crise e esquecem que de ano para ano muitos milhares de euros rolam para que o navio navegue. 
Um agricultor pode comprar um belo tractor com as respectivas alfaias, mas quantos anos leva até ao pagamento desse investimento estar concluído? 

Em Portugal produz-se e produz-se bem por um preço incerto, não havendo fiscalização por parte dos orgãos competentes ligados ao ministério da agricultura e economia. É que as organizações de produtores apesar de ser uma denominação pomposa tem tudo menos de organização com a óptica de ajudar a malta que trabalha de sol a sol. Daí os preços incertos. Os preços incertos e anunciados à própria da hora são uma forma de obrigar os empresários agrícolas a produzir e desta forma encher os cofres da organização que vende a preço de ouro o que paga ao preço da "uva mijona". Ridículo, mas é o que temos.

Neste país além de agricultor é preciso ser gestor. Gerir bem os rendimentos que sobraram da última campanha (se sobraram) para dar o arranque na próxima. Anda-se mais ou menos ao pé cochinho e a família, os casamentos, os namoros são quem mais padecem. Não há tempo. Não há horários e o mais grave, nos primeiros anos raramente há salário. É uma utopia pensar que na agricultura consegue-se tirar um vencimento mensal. Pode acontecer, mas concretamente na fase de arranque de um projecto que envolve milhares (muitas vezes com capitais alheios da banca), com factores de produção altissimos, o importante é pagar o que se deve e guardar o que sobrar para que a familia tenha o que comer durante o ano.

Sou descente de uma familia que tanto do lado materno como paterno sempre esteve ligada à agricultura. O meu bisavô materno foi o primeiro homem no ribatejo e, talvez em Portugal, a deter uma empresa familiar de prestação de serviços agrícolas. Embora tenha falecido relativamente cedo deixou um importante legado aos seus descendentes: nunca baixar os braços perante as adversidades.
Fui ensinada a poupar desde cedo. A ter o meu próprio migalheiro e a primeira vez que fui ao Algarve tinha 4 anos e a última 23 anos. Morri? Não! Quando havia dinheiro podíamos ir quinze dias de férias sempre em Setembro, quando não havia íamos um fim-de-semana ou apenas um dia às praias perto daqui. Há que saber dançar com a escassez e com a abundância. 
À mesa nunca houve camarão ou lagosta (por opção), mas houve outras coisas e momentos que valem mais que tudo aquilo que acaba por ir pelo cano do esgoto abaixo. Alguns aniversários e natais não tiveram presentes, mas esteve a família presente. E não, nem sempre havia paciencia ou tempo para mimos. Mas havia espaço para que durante a madrugada, o pai, quando chegava a casa ou saía nos desse um beijo. 
Nunca ouvi ou vi a minha mãe a demandar atenção, muito pelo contrário, ela tomava as rédeas da casa na ausência do meu pai. E não. Ele não era escravo do trabalho. Sabia apenas que para colocar comida em cima da mesa e proporcionar o minimo de conforto à família teria de trabalhar de dia e de noite. O mesmo acontecia com a minha mãe que tantas vezes se atolava de lama para que o milho ficasse bem regado. 

Sabem, foram, são estes pequenos detalhes que fizeram de mim a mulher que hoje aqui se apresenta. Há algum tempo li um artigo que caracteriza os agricultores como sendo infelizes no amor, penso que os verdadeiros infelizes são aqueles e aquelas que não conseguem compreender o paradigma de estar nesta actividade porque durante toda uma vida tiveram e têm um salário garantido que cai na conta sempre no dia marcado de cada mês. De uma maneira geral o pessoal é infeliz, porque quer. Porque olha apenas para o seu próprio umbigo. 
É fácil exigir, díficil é vestir a pele ou calçar os sapatos do outro. É importante estar junto, mas estar junto implica também compreender que há um timming para tudo e que naquele momento há obrigações a cumprir que serão para beneficio não só de quem trabalha, mas do casal e da família.Trabalhar por conta própria, ainda por mais neste sector, é um quebra cabeças todo o tamanho em que de um momento para o outro podemos ficar sem os bens que tanto nos custou a adquirir.

Ser agricultor/a é ter paixão pela terra. Por aquilo que se produz e desta forma compaixão pelo nosso semelhante. É preciso saber abdicar. É preciso estar lá todos os dias e noites quando necessário. É preciso ser homem e mulher despidos de vaidades e manias. Simplicidade acima de tudo e olho de lince para investir e gerir.


Bem-haja!


Alexandra

4 comentários:

  1. Apesar de não a conhecer sinto nas suas palavras uma pessoa admirável ,trabalhar a terra com amor ,sentir orgulho das suas raizes ,encarar a vida com determinação num sector que muitas vezes depende do clima não é facil entre outros ,que Deus continue abençoando a sua vida e a de todos quanto ama ,muitos beijinhos Alexandra.

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    1. Confesso que este comentário deixou os meus olhos em água. Neste último ano tenho trabalhado bastante Emanuel e nem sempre tem sido fácil. No entanto, apesar das adversidades, continuo o meu caminho. E sim, Deus está do meu lado como sempre esteve ao longo destes 30 anos.

      Beijinho

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  2. Obrigada pela visita ao meu blog...Espero que volte.....
    Sim, devemos fazer tudo com amor...
    Beijos e abraços
    Marta

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