domingo, 19 de abril de 2015

'Agricultura'





(framboesas da colheia de outono/inverno 2014)



Decorria o ano de 2012 quando decidi abraçar, talvez, a mais difícil de todas as profissões. Ou das mais dificeis: Agricultura.
Ao contrário daquilo que é apregoado através dos diversos meios de comunicação social, a agricultura não é, nem pode ser uma actividade económica de part-time e muito menos deve ser vista como algo de segunda categoria em que apenas se recorre em momentos de "crise". Por muito que custe a alguns olhos que possam ler este texto, a verdade, é que ser agricultor ou agricultora é uma actividade que exige de nós disponibilidade, tempo (muito tempo) e entrega. E sim, quem se dedica por inteiro a esta actividade nem sempre pode estar com a família, ter férias, entre outras coisas ou actividades de lazer que todos nós gostamos de fazer. E este, é sobretudo, o cenário de quem está nesta actividade por conta própria. 

Portugal encheu-se nos últimos anos de jovens agricultores que segundo o Ministério da Agricultura deram um novo ímpeto a este ramo. Julga-se erroneamente que os agricultores são uma classe abastada. Mas aquilo que ninguém fala, aquilo que ninguém apregoa são as duras realidades e obstáculos que encontramos. Tudo começa com a dificuldade de acesso ao crédito que pode barrar a realização/concretização do investimento. Neste momento a banca Portuguesa pede mundos e fundos a quem apenas tem vontade de trabalhar. Exige um fiador e algo de "palpável" quando durante anos a fio disponibilizaram crédito a tudo o que era projecto sem sequer analisar. 

E não, não podemos esquecer os "lobos" que emergiram aquando deste "boom" da nova agricultura. São muitos, mais que as mães, aqueles que querem comer o bolo de quem trabalha dia e noite nesta actividade. 
Orçamentos inflacionados com vista a captar os subsídios a fundo perdido. Empresas fictícias que vendem materiais, que recebem dinheiro de projectos chave na mão e que não aparecem para realizar as ditas obras. 
São as pseudo organizações de produtores, que não são mais que empresas privadas que têm o intuito de se transformar em organizações de produtores. Empresas essas que oferecem um pseudo acompanhamento técnico e pagamento de uma quota equivalente aos metros quadrados totais da exploração assegurando o escoamento da produção. Mas essa mesma produção é vendida a que preço? Ao preço de nem sequer cobrir os gastos básicos (electricidade, adubos, mão-de-obra, etc).
Mas alguém fala? Alguém ouve falar sobre isto? Não! E a principal razão é esta: somente uma minoria destes jovens agricultores trabalha a tempo inteiro na agricultura. E é esta mesma minoria que se revolta. Sofre. Chora. Reivindica. É nesta mesma minoria que me incluo. A minoria que está nesta actividade por paixão, por gosto, porque é isto e disto que quer viver. Mas somos poucos. Poucos para termos voz e denunciar. 

Aqueles que não vivem da actividade agrícola a tempo inteiro apenas estão nela como sendo uma actividade de fim-de-semana. Colocam meia dúzia de mouros a fazer o que eles deveriam fazer e depois ao fim de 5 anos abandonam os campos porque o dinheiro que deveria ser canalizado no investimento foi para outras coisas que não factores de produção.
 E não, também não me posso esquecer daqueles e daquelas que apenas deram o nome para inúmeros projectos submetidos e aprovados. Apenas isso, o nome. Quem trabalha efectivamente são os tios, os primos, os vizinhos que não tinham idade para submeter um projecto nesta medida do Proder.

Apesar de todo este cenário consegue-se obter rendimentos para se viver a tempo inteiro na agricultura. Temos somente que aprender com erros e ter a astucia suficiente de trilhar o nosso próprio caminho. Portugal tem um longo trajecto a percorrer e os portugueses deviam apostar mais e bem no associativismo entre produtores (sem fins lucrativos) apenas com vista a ganhar escala de exportação e até mesmo de venda no mercado nacional. Temos tudo a nosso favor: solo, condições atmosféricas e infra-estruturas.


Tenham uma boa semana


Alexandra









5 comentários:

  1. Olá Alexandra,

    Começo pela fotografia que apetece comer. Bonita. Cor vibrante, fruto muito bom. Gostei.

    Quanto à palavra agricultura com aspas é que não me parece bem, se formos pelo caminho de que agricultura é um trabalho digno que produz o que é bom. Framboesas encaixam muito bem no local do bom.

    Assunto muito pertinente. Deveria falar dele mais vezes, é para isso que um blog também serve. Cá para mim dei uma ajudinha quando falei que era uma jovem agricultora. Se serviu para sair este texto, valeu a pena, porque está muito bem escrito. É um grito de revolta misturado com paixão pela área que resolveu abraçar. Não me incluo no grupo dos que desconhecem as dificuldades por que passam as pessoas que querem dedicar-se a este ramo de negócio. Tenho consciência que o caminho não é fácil, não tivesse eu vivido com um avô que tratava a terra por tu. Um homem de negócios e, simultâneamente, um agricultor. Ou, talvez ao contrário.

    Beijinho e tenha uma óptima semana :)

    PS: Não se esqueça da licenciatura em psicologia...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Maria,

      não são aspas. Coloco aquele sinal em todos os títulos. :)

      A agricultura é de facto um trabalho muito digno e que pode dar um vencimento anual considerável à família ou ao agricultor. É muito difícil nesta actividade tirar um vencimento mensal porque surgem sempre imprevistos e tem de existir sempre fundo de maneio suficiente para contornar as situações.
      Como referi apregoam-se facilidade mas, a verdade, é que com esta vaga de jovens agricultores ressurgiram os "pseudo tudo" que vigarizam a malta. É preciso ter muito cuidado quando falamos de investimentos agrícolas e ter, antes de tudo, um conselho com quem de facto conhece a cultura que se pretende escolher e a zona para onde esta irá ser colocada.
      O caminho não é fácil de todo e penso que apesar dos contratempos consegui erguer a exploração que ainda não está concluída.
      Outra coisa em que muitos jovens agricultores erram é, após aprovação do projecto, tendem a adjudicar os orçamentos iniciais não procurando outras empresas que façam o mesmo serviço por valores mais baixos sem perder a qualidade. Mas isto é outra história que irei abordar num outro texto.

      Beijinho Maria e boa semana.

      PS: A licenciatura não está esquecida :)

      Eliminar
  2. Quando metes mão à obra, seja ela qual for, é para valer, 'sem medos'.
    Beijinho e boa semana, Alexandra.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Foi sempre assim meu amigo, sem medos... doa a quem doer.

      Beijinho e boa semana!

      Eliminar
  3. Admiro muito a sua dedicação ,uma vida cheia de sacrifícios com certeza ,eu sei bem o que custa pois venho de uma familia de agricultores onde não existem horas marcadas para entrar e para sair ,uma vida muito digna para quem faz da terra o seu sustento aproveitando o melhor que dela brota com o suor do seu trabalho,muitas felicidades Alexandra,beijinhos.

    ResponderEliminar

Façam do meu espaço o vosso espaço, ousem comentar... eu ousarei responder! :)