segunda-feira, 14 de setembro de 2015

'O Santiago morreu num país de cegos'








O Santiago morreu aos trinta anos num país de cegos onde o importante é discutir política, religião e outras merdas afins como se isso tivesse algum resultado. Aproveito para mandar todos esses comentadores e escritores de trazer por casa à merda.

Peço desculpa, mas estou saturada de hipócritas, de carneirada. O Santiago não faleceu de acidente ou de doença, o Santiago suicidou-se por não encontrar uma luz ao fundo do túnel na resolução do seu problema.
Falo de um jovem de 30 anos, designer gráfico de profissão, que como muitos outros jovens deste país nasceu com aquilo a que damos o nome de transtorno de identidade de género ou como os ignorantes, como as aberrações gostam de apelidar "transexual". Pois que enfiem o transexual rabo acima para ver se denotam algo de transcendental. 

O Santiago era meu amigo. O Santiago era um rapaz normal que tentava levar uma vida normal. Tentava, sim tentava!! Tentava porque as cirurgias de que necessitava eram adiadas dia após dia. Tentava porque não conseguia encontrar trabalho. Tentava porque o desespero era grande e o constante adiar de uma vida em pleno ia matando aos poucos o Santiago.
Tentou pôr termo à vida inúmeras vezes, porque o corpo saturado de injecções hormonais dava sinal de que era necessário avançar com o plano cirúrgico. Andou mais de seis anos num impasse. Vários diagnósticos realizados que diziam sempre o mesmo, uma mastectomia ao que parece com resultados pouco satisfários e o impasse que encontrou em Coimbra no que toca às cirurgias de redesignação sexual gerou uma bola de neve demasiado grande para o Santiago que apenas contava com o apoio da mãe e de alguns amigos.
Soube ontem que o Santiago havia falecido há três semanas. Suicidou-se! Esta foi a única maneira que o Santiago encontrou para solucionar o dilema em que se encontrava... a única quando existem tantos outros caminhos a percorrer.

Trouxe este tema uma vez mais ao meu espaço para que a morte do meu amigo Santiago e de tantos outros como ele não seja em vão. Talvez com esta realidade se deixem de fazer floreados nos meios de comunicação social e, talvez, desta forma as pessoas na sua generalidade acordem para esta realidade que sempre existiu. 
Essa merda que fazem, não encontro outra palavra, de apelidarem as pessoas de homens e mulheres trans deveria ser considerado crime com punição severa. São estes rótulos, estas barreiras que precisam ser esbatidas e somente com um diálogo sério e franco sem sensacionalismo se conseguirá tal feito. Perdem-se vidas todos os dias. Todos os dias, sem exagero, morre uma criança, um jovem, um adulto à conta desta patologia clínica. 

Morrem pela incompreensão, pelo medo de não aceitação das famílias. Morrem porque acham que mesmo depois de tudo concluído não serão felizes. Morrem porque vêem na morte a alternativa eterna de serem quem realmente são sem amarras. 

Vamos continuar cegos? Vamos continuar a deixar que tratem estes homens e mulheres como espécies de circo? Capachos de gente sem um mínimo de cultura, de ignorantes diplomados nas mais importantes universidades do país?
Neste país de cegos, já alguém parou para pensar na mãe que perdeu o único filho que tinha? É duro não é?!

Que estejas em Paz é o que de melhor te posso desejar, Santiago.


Alexandra



6 comentários:

  1. Infelizmente vive-se num mundo cruel ,espero que aprendamos a respeitar tudo e todos ,todos diferentes ,todos iguais ,meus sentimentos a você e a toda a familia do Santiago ,um abraço.

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  2. Obrigada Emanuel. Infelizmente, pelo Santiago nada pode ser feito, mas pelos outros Santiagos e "Santiagas" há muito a fazer. Espero, sinceramente, que este país abra os olhos ao que faz com os seus cidadãos mais vulneráveis e espero que ganhem vergonha na cara e respeito por cada um deles.

    Beijinho

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  3. Primeira vez que leio e estou rendida. Partilho da sua indignação para com estes estigmas da sociedade em que vivemos. Um carinho especial para a mãe que perdeu o seu filho e um forte aplauso à Alexandra. Obrigada.

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    1. Olá Teresa,

      o meu blogue serve para isto mesmo. É complicado quando perdemos pessoas que nos são próximas de forma tão injusta. Como diria um amigo meu: pagou com a vida a vida que não podia viver. Isto é grave Teresa, muito grave. Todos os dias morrem pessoas por causa disto, de algo que pode ser resolvido de forma tão simples. Morrem porque não aguentam a pressão de viver numa sociedade que os abafa, que os mata lentamente com mediocridade, hipocrisia, discriminação.

      Obrigada eu por ter lido e entendido a mensagem. :)

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  4. Bom dia Alexandra! Gostei do seu desabafo. Nesse momento assisto o Bom dia Brasil e vejo como o Governo não está nem ai pra nada muito menos para o povo. O INSS em greve a 70 dias e as negociações não avançam pq o Governo não cede, enquanto isso pessoas estão morrendo sem receber o que lhe é de direito, isso é imoral e descabido. Parabéns pelo seu grito!
    A falta de respeito pelo ser humano,é no mínimo é o que as autoridades precisam...Urgentemente!
    Meu abç!

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    1. Boa tarde cara leitora,

      em Portugal é importante gritar por coisas que valham a pena. Pelas pessoas. Pela vida das pessoas... o resto é o resto!
      Quando morre alguém porque não teve a devida ajuda, morre em mim o acreditar de que num futuro próximo todos serão respeitados e convenientemente aceites como seres humanos.
      Tenho conhecimento de que no Brasil o caos é grande, há que ir em frente e lutar por nós e pelos nossos.

      Abraço

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